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BC corta Selic pela 4ª vez seguida, para 14% ao ano; comunicado deixa próximos passos em aberto

  • há 1 dia
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Após a moderação em dados de inflação e atividade, o Banco Central (BC) decidiu cortar a Taxa Selic em 0,25 ponto percentual no Comitê de Política Monetária (Copom) desta quarta-feira, de 14,25% para 14% ao ano. Essa é a quarta queda no ciclo de calibração dos juros básicos e todas foram da mesma dose, somando no total 1 ponto percentual de alívio, em um dos processos de afrouxamento monetário mais graduais da história do Copom.


O atual ciclo de redução da Selic foi iniciado em março, após a taxa ser mantida por cerca de nove meses (desde junho de 2025) no pico de quase duas décadas, de 15%. O novo nível alcançado com a decisão unânime do colegiado liderado pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, nesta quarta é o menor desde março do ano passado (13,25%).


Para a próxima reunião, em setembro, mais uma vez, o BC não deixou pistas sobre seus planos. O colegiado afirmou que vai acompanhar a evolução dos dados diante de um cenário com bastante incerteza, desancoragem de expectativas de inflação e riscos elevados, mas ressaltou que monitora com "atenção" desancoragem adicional das expectativas de inflação.


"O Comitê monitora com atenção a desancoragem adicional das expectativas de inflação para prazos mais longos na medida em que esta contribui para a determinação dos preços e aumenta o custo de desinflação. Em decorrência da dinâmica dos riscos associados à evolução dos preços, o Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta."


Citando também o "significativo aumento de incerteza", o BC reforçou que o cenário atual demanda "serenidade e cautela" na condução dos juros.


"O cenário atual, caracterizado por significativo aumento da incerteza, desancoragem das expectativas e riscos elevados em torno do cenário base, demanda serenidade e cautela na condução da política monetária. O Comitê seguirá acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta."


A Selic é o instrumento que o BC detém para tentar cumprir sua missão de colocar a inflação na meta, que é de 3%, com limite de tolerância entre 1,5% e 4,5%. O corte dos juros básicos para 14% era amplamente esperado por bancos, gestoras e consultorias consultadas pelo Valor Pro. Das 113 instituições ouvidas, 110 esperavam queda de 0,25 ponto percentual, enquanto três aguardam manutenção em 14,25%.


O consenso do mercado sobre esta decisão do Copom foi se formando ao longo do tempo, principalmente graças a resultados melhores do que o esperado nos principais indicadores de inflação e atividade econômica desde o último encontro, em junho. Naquela reunião, o BC já não tinha dado nenhuma sinalização sobre os planos para a Selic para esta quarta. Em um ambiente bastante volátil e incerto, a estratégia do comitê para conduzir a política monetária com “serenidade e cautela” foi esperar a evolução dos dados até a reunião deste mês.


Nesse sentido, tanto o IPCA — índice inflacionário oficial — de junho (0,16%) quanto o IPCA-15 de julho (0,06%) representaram surpresas favoráveis, sobretudo nos índices subjacentes, que indicam a tendência de inflação. No campo da atividade, o arrefecimento na geração de vagas formais de emprego na primeira metade de 2026 (921,6 mil) ante o mesmo período de 2025, conforme o novo Caged, também foi considerado uma notícia positiva em relação ao risco inflacionário à frente.


Editorial: Contas públicas atestam fracasso do arcabouço fiscal

No comunicado desta quarta, o BC citou os dados mais favoráveis, mas foi bastante contido na caracterização da evolução positiva, ponderando que a atividade segue em patamar resiliente e o mercado de trabalho, aquecido. De acordo com o colegiado, os indicadores de atividade "mantêm-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026"


Em relação à inflação, disse que o índice cheio desacelerou, mas ainda se situa acima do teto da meta (4,5%), enquanto os núcleos estão agora marginalmente abaixo do limite superior.


"O conjunto dos indicadores divulgados desde a última reunião sugere uma moderação gradual da atividade econômica, embora ainda em patamar resiliente, com sinais mistos entre setores, e mercado de trabalho aquecido. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia desacelerou, porém ainda acima do limite superior da meta, enquanto as medidas subjacentes desaceleraram para patamar ligeiramente abaixo do limite superior da meta."Sobre a política fiscal, o BC repetiu apenas que segue acompanhando como esse fator impacta a política monetária e os ativos financeiros, "reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza". Quanto ao cenário externo, o BC avaliou que o ambiente segue "incerto" em função da indefinição acerca dos conflitos armados no Oriente Médio, que têm elevado os preços de petróleo, e da incerteza sobre a política monetária em algumas economias avançadas.


"Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities."No comunicado, o BC também atualizou as projeções do Copom para o IPCA - índice de inflação oficial - para 2026, 2027 e para o primeiro trimestre de 2028, que a partir desta reunião passa ser o horizonte relevante do comitê, ou seja, o período em que o colegiado mira para colocar a inflação na meta. Para o primeiro trimestre de 2028, a projeção foi mantida em 3,2%, enquanto para o final de 2026 houve leve redução, de 5,2% para 5,1%, e para o término de 2027, aumento marginal, de 3,7% para 3,8%.


As estimativas são calculadas com base em um cenário que leva em consideração a Selic no Boletim Focus (13,75% no fim deste ano e 12% no final de 2027) e uma taxa de câmbio que começa em R$ 5,10 e evolui conforme o método da paridade do poder de compra. Além disso, o petróleo segue a curva futura da commodity pelos próximos seis meses e depois passa a aumentar 2% ao ano. O BC, no entanto, tem dito que diante da forte incerteza no cenário, há menor grau de confiança sobre as projeções.No caso das expectativas, desde o encontro de junho, houve redução na projeção mediana do Boletim Focus para 2026, de 5,3% para 5,0%, embora fora do intervalo da meta, mas alta nas estimativas mais longas, para 2027 e 2028, para 4,2% e 3,8%, respectivamente. O desvio para os próximos anos, especialmente em 2028, é considerado mais preocupante, porque não tem relação com os choques de oferta, como o salto nos preços de petróleo devido à guerra e o risco climático relacionado ao El Niño, e é associado em parte às preocupações fiscais domésticas.


Em relação ao balanço de riscos, foram mantidas as preocupações constantes do comunicado de junho, com a avaliação de que há uma assimetria altista, ou seja, as ameças que podem elevar ainda mais as projeções de inflação pesam mais na balança. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, o Copom destaca:


uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado, com horizontes mais longos incorporando impactos potenciais de segunda ordem de choques de oferta, relacionados ao petróleo e seus derivados, e a efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e custos de energia;

uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo;

uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada; e

estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial, enfraquecendo parte dos canais usuais de transmissão da política monetária - referência aos programas mais recentes do governo em meio ao ano eleitoral.Por outro lado, ressalta três riscos de baixa:


uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação;

uma desaceleração global mais pronunciada decorrente dos choques de comércio e do petróleo, e de um cenário de maior incerteza; e

uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.

A comunicação deste reunião foi considerada mais clara e direta do que a anterior pelos analistas econômicos. Em junho, o mercado considerou que o comunicado, ao tentar explicar a opção pelo corte, de 14,50% para 14,25%, mesmo com a projeção oficial de inflação longe da meta de 3%, ficou confuso e deu a impressão que o Copom buscava "alongar o horizonte" para alcançar seus objetivos - ou seja, permitir que a inflação ficasse mais alta por um pouco mais de tempo.


Depois, em entrevista à imprensa, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e o diretor de Política Econômica, Paulo Picchetti, explicaram que a decisão pela queda devia-se à avaliação de que o desvio era explicado majoritariamente pelo choque ligado ao fenômeno climático El Niño, que se dissiparia já no primeiro trimestre de 2028, o horizonte relevante nesta reunião de agosto — o alvo é móvel, de 18 meses à frente.


Segundo Fabio Kanczuk, ex-diretor do BC, o comunicado desta vez foi bastante sucinto. Para ele, o Copom foi direto ao ponto, embora não tenha dado nenhuma sinalização sobre o que planeja fazer nas próximas reuniões. O economista cita que o BC alterou algumas mensagens do comunicado, como o trecho em que diz que "monitora com a atenção" a desancoragem de expectativas, mas não acha que há nenhuma mensagem sobre a condução dos juros nessa mudança.


Para Kanczuk, no entanto, com a projeção de inflação para o horizonte relevante em 3,2%, o plano de voo do BC é seguir cortando a taxa Selic no ritmo atual de 0,25 ponto percentual enquanto não houver "crise". O economista afirma que o cenário base é de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que pode, em algum momento, gerar um estresse no mercado devido aos problemas fiscais do país. Mas, segundo Kanczuk, isso pode demorar a acontecer.



— O plano dele é continuar, ao menos que alguma coisa aconteça, ao menos que uma crise aconteça — disse Kanczuk, que espera que a Selic termine o ano em 13,25%, com quedas nas três próximas reuniões.


O economista-chefe da Integral Group, Daniel Miraglia, concorda que o BC mantém a porta aberta para novos cortes e avalia que isso tem condição de acontecer, sobretudo porque tem a expectativa de estabilização da cotação do petróleo no mercado internacional em US$ 80.


— Foi um comunicado neutro. O BC está aberto e muito provavelmente vai continuar reduzindo a Selic, porque o preço do petróleo em torno de US$ 80 já mantém a inflação em um nível mais baixo, sem depreciação do dólar. Tem espaço sim para continuar cortando em setembro, a maior probabilidade é de pelo menos mais dois cortes.


Já Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, avalia que o Copom adicionou um "grau adicional de cautela sobre a desancoragem das expectativas e os riscos elevados em torno do cenário-base. Nesse sentido, a principal conclusão é que tanto a manutenção da Selic em 14% quanto nova queda de 0,25 ponto percentual, para 13,75%, estão no páreo para setembro.


"Acho que as duas possibilidades são compatíveis com o comunicado de hoje. Ele não consegue fazer um forward guidance, ou optou por não fazer, porque, de fato, não teria sentido, dado esse aumento de riscos e incertezas. Ninguém sabe exatamente o que vai acontecer; ele também não sabe. Então prefere decidir com cautela, reunião a reunião, observando os dados e a evolução do cenário", disse o economista, em relatório.




CRÉDITOS/FOTOS: oglobo.globo.com


 
 
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